A memória de Pidas como medalha de uma corrida diferente

Mais de 300 pessoas juntaram-se na Foz do Douro sob a bandeira dos Cães d’Avenida para lembrar o seu fundador, João Pedro Espregueira – Pidas -, falecido em dezembro de 2015, após uma corrida.

Artigo do Jornal de Notícias por Ivete Carneiro / 

Faltam cinco para as dez de sábado, dia 24, e a manhã teima em não sair de debaixo do manto de nevoeiro. Está frio, até. Um cão saltita de perna em perna (não as dele), as crianças correm à roda do coreto do Jardim do Passeio Alegre da Foz do Douro, no Porto, por acaso adornado com fitas de Natal (?!), e dezenas de pessoas de t-shirt branca e sapatilhas não olham, sequer, para os relógios. Tagarelam.

Faltam dois minutos, e depois? O Pidas – é por ele que estão ali, quase a tremer – também nunca chegava a horas. Pidas era João Espregueira Mendes, o jovem da Foz que gostava de correr e gostava de ter gente a fazê-lo com ele. E que se lembrou, por isso, de dar um nome a um grupo de amigos que tinha na primeira linha invisível dos estatutos a missão de crescer e multiplicar-se: os Cães d”Avenida (há quem diga que cães vem de Jecos, uma equipa de futebol, e que avenida vem da avenida Brasil, pista de treinos de Pidas, daí o nome).

O nome é, pronto, estranho, mas vamos ao que aqui importa. Pidas morreu. E foi um choque para o dito grupo de amigos, que então já ia bem além da centena. Morreu assim, sem avisar, depois de ter terminado um treino solidário com os seus “Cães” e de ter entregue donativos à Vida Norte. Era Natal, era 2105 e era bem antes do meio de uma vida cuja descrição, asseguram todos os que estão ali, não cabe numa mão cheia de adjetivos.

É em honra da pessoa e da associação que cresceu à imagem dela que mais de três centenas de pessoas se juntam ali, naquele desconfortável sábado, para uma corridinha de 10 Km e uma caminhada de 5. Trata-se, diz-nos Carlos Braga, hoje presidente executivo dos Cães – o presidente emérito, insubstituível, é Pidas – de juntar “corrida, amigos e convívio”, como Pidas fazia, nas manhãs de fim de semana, independentemente das horas de sono (há quem diga que pareciam, então, cães vadios, de olheiras, a correr a avenida, daí o nome). Desta vez, trouxeram os filhos, os vizinhos, os cães, um carrinho de bebé. E vestiram todos a camisola branca do grupo.

Alinham-se no largo entre o fim do Douro e o princípio do Atlântico, atrás de uma fita de obra vermelha e branca, descontam o cronómetro a olho e partem, aos gritos, em direção à Avenida Brasil (há quem diga que Pidas era “boavisteiro convicto” e que os portistas chamavam cães da avenida – da Boavista, neste caso – aos boavisteiros, daí o nome). No final, haveria festa no coreto, com música e comes e bebes e a entrega de bens alimentares à Refood Foz – que distribui refeições por famílias carenciadas da freguesia.

“Isto começou como um grupo de amigo, foi crescendo e agora é um grupão de amigos. Não podia faltar!” sorri Ana Luísa Xavier, que fala de um Pidas transversal, amigo de quem viesse, sem olhar a origens, uma “inspiração”. Não muito longe, Luís Sousa Pires, fundador dos Cães quando nasceu a associação, fala de um Pidas que trazia na amizade desde bem antes, um tipo espetacular e atento, que recorda a distribuir os dorsais caseiros para o fatídico treino e a assegurar-lhe que não estava esquecido um favor que Luís lhe pedira. “Isto é uma família”. E fica tudo dito.

Carlos Braga, que costumava estar no Grande Trail da Serra d”Arga neste particular fim de semana do ano, explica-nos que, ora, há prioridades. E Pidas é uma delas. A reboque dele, um grupo substantivo de mães começou a correr às sete da manhã, passando por cima da desculpa dos trabalhos da maternidade. A reboque dele, todos os meses se corre o “mensalão” para ajudar associações. A reboque dele, os filhos dos associados começam a alinhar à frente dos grandes, atrás da fita vermelha e branca. A reboque dele nasceu “um pretexto”. A reboque dele, mais de 300 pessoas transformaram uma manhã ranhosa de sábado num sorriso.

Fonte: https://www.jn.pt/desporto/especial/interior/a-memoria-de-pidas-como-medalha-de-uma-corrida-diferente-8809035.html